sexta-feira, 28 de junho de 2013

Carlos do Carmo | Aprendamos o rito de Saramago




"APRENDAMOS O RITO"

Põe na mesa a toalha adamascada
Traz as rosas mais frescas do jardim
Deita o vinho no copo, corta o pão
Com a faca de prata e de marfim

Alguém veio juntar-se à tua mesa
Alguém a quem não vês mas que pressentes
Cruza as mãos no regaço, não perguntes
Nas perguntas que fazes é que mentes

Prova depois o vinho, come o pão
Rasga a palma da mão no caule agudo
Leva as rosas à fonte, cobre os olhos
Cumpriste o ritual e sabes tudo.

Poema de José Saramago, música de Miguel Ramos

terça-feira, 25 de junho de 2013

Madiba: 'I am the master of my fate: I am the captain of my soul'




INVICTUS  dito por Morgan Freeman

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds, and shall find, me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll.
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

 William Ernest Henley, 1875

segunda-feira, 24 de junho de 2013

sexta-feira, 21 de junho de 2013

VERÃO

Stranglers | Always the sun, 1986

quarta-feira, 19 de junho de 2013

ANAIS NIN

It is possible I never learned the names of birds in order to discover the bird of peace, the bird of paradise, the bird of the soul, the bird of desire. It is possible I avoided learning the names of composers and their music the better to close my eyes and listen to the mystery of all music as an ocean. It may be I have not learned dates in history in order to reach the essence of timelessness. It may be I never learned geography the better to map my own routes and discover my own lands. The unknown was my compass. The unknown was my encyclopedia. The unnamed was my science and progress."

in The Diary of Anais Nin, Vol. 4: 1944-1947





terça-feira, 18 de junho de 2013

Ode para o Futuro | Jorge de Sena

Ode para o Futuro

Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós – de nós! – como de um sonho.

jorge de Sena  1949



domingo, 16 de junho de 2013

'Carta a meus filhos' de Jorge de Sena dito por Mário Viegas




Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya 

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com «suma piedade e sem efusão de sangue».
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer
aniquilando mansamente, delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que,
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena | Lisboa, 25-06-1959

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Margarida Vila-Nova diz 'Socégo enfim. Meu coração deserto'





Soneto de Fernando Pessoa, Socégo enfim. Meu coração deserto, dito por Margarida Vila-Nova. Inédito publicado na revista Granta, nº 1, lançada no dia 25 de maio 2013.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O tempo esse grande escultor

O tempo esse grande escultor é o título de um livro de Marguerite Yourcenar, de 1984, onde se podem encontrar vários ensaios sobre diversos temas do interesse da escritora e também meus. Estes ensaios são uma reflexão sobre o passado e o presente, o gosto pela arte, a meditação sobre a vida ...

Deste livro, inspirou-me o título, que há algum tempo acompanha os meus pensamentos.

Efetivamente, o tempo à medida que vai passando, vai nos moldando, tornando-nos obras primas ... imperfeitas, mas obras primas!

Nesta primavera o tempo ganhou um espaço próprio em As Estações do Ano, um blogue que tenta não ceder ao chamamento da vulgaridade (kitsch) e do óbvio. Difícil tarefa, nos dias que correm.

Tentar não quer dizer que se consiga! Divirtam-se, neste verão, que está aí à porta! E ouçam Luísa Sobral.


"Já passaram dois anos e tal ..."  Luisa Sobral canta Xico, da sua autoria.

O que me animou e apaixonou nesta primavera? 

A amálgama de sentimentos e sensações com os quais eu vivo. (In)tranquilamente!

Marcha de Santo António | Cuca Roseta



Cuca Roseta canta Marcha de Santo António de Norberto Araújo, letra, e música de Raúl Ferrão.


Vê o meu balão
Aqui a baloiçar
Verde e encarnado
De luz a brilhar,

É uma estrela
Num arco enfeitado
No céu de Lisboa
Na marcha a cantar.

Meu Santo António
Se tu vires passar
Algum rapaz sem par
Sozinho pela rua,

Vai-lhe dizer
Que eu já tenho um balão
Um arco e uma canção
E a imagem tua.

...

terça-feira, 4 de junho de 2013

Que posso eu dar ao teu destino? Nada! | Fernando Pessoa



Inédito de Fernando Pessoa (soneto), publicado no primeiro número da revista Granta, lançada no dia 25 de maio. Poema dito por Gonçalo Waddington. Disfrutem!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Le Temps des Cathédrales




Le Temps des Cathédrales, du musical Notre-Dame de Paris. Paroles de Luc Plamondon et musique de Riccardo Cocciante.

sábado, 1 de junho de 2013

Eugénia Mello e Castro | Terra de Mel

TERRA DE MEL

Dás-me os olhos para ver
O que está na minha mão
Ela está entre o que eu sei
E antes do ainda não

Dás-me a boca para saber
O que está na minha pele
Ela está dentro de mim
e sabe a terra de mel

Dás-me o corpo para sentir
O que está no meu olhar
Ele está depois de mim
E antes de aí chegar

Dou-te os olhos para ver
O que ainda não chegou
Que aqui perto eu penso em nós
Ao lado do que passou