MIMAR é a palavra que me apetece juntar às outras que caracterizam estas estações, - confortar, apaixonar, refrescar, animar, aquecer e aconchegar. A canção de Caetano belíssima, embora num sentido restritivo e limitado, é a minha escolha para emoldurar esta amorável palavra em As estações do ano. A marcar o início da primavera.
A primavera é depois de amanhã, e no dia seguinte é o dia mundial da poesia. Como eu não imagino os meus dias sem poesia, deixo-vos, este poema de Alberto Caeiro dito por Pedro Lamares "Quando vier a primavera".
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio
Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação
Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p'ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora
Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la
E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito
E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos
E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes
Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...
Alberto Caeiro
Terror de te amar
Terror de te amar num sítio tao frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Neste inverno frio e primaveril aqueceram-me os dias soalheiros e luminosos que caracterizaram de forma inusitada esta estação.
A leitura de O memorial do convento também chegou em boa hora. A obrigatoriedade desta tarefa transformou-se numa descoberta, surpreendentemente agradável, para quem, até agora, ainda não tinha sido seduzida por esta escrita. Só por Saramago!
Aquecem-me e confortam-me as pessoas que fazem parte da minha vida e em quem eu me aconchego, esteja frio ou calor.
Aguardemos, então, pela primavera que já se faz sentir e com ela a sensação sempre agradável do recomeço.
"Enquanto preparava a mudança de casa empacotando a quantidade estúpida de livros que tenho, praguejava contra esse meu vício de comprar mais e mais. Numa pausa e por mero acaso, peguei no Lunário do Al Berto e li o seguinte:
"«Sempre levei na bagagem muito pouca coisa» pensou Beno, esticando o pescoço para a frente de modo a seguir o voo sinuoso duma gaivota no enquadramento da janela. «Uma ou duas camisas, t-shirts, dois ou três pares de calças e uma infinidade de minúsculos objectos que nunca me serviam para nada. Viajei com o absolutamente necessário. E ao chegar a qualquer lugar comprava o que me fazia falta, depois, assim que prosseguia caminho, deitava tudo fora. Sempre achei que o que me era útil e indispensável num sítio deixaria de o ser noutro...»"
E pensei:
“É isto que quero para mim! Viver apenas com o indispensável e evitar estar preso ao acessório”
Esta ideia romântica fez-me ponderar fazer uma venda de garagem e vender todos os meus livros, discos e filmes. Com esse dinheiro faria uma viagem de mochila às costas durante um mês e voltaria diferente, mais capaz e confiante para enfrentar os desafios do dia-a-dia. Seria uma experiência que mudaria a minha vida. Felizmente tal ideia passou-me rápido e dias depois alombei com as caixas até um terceiro andar sem elevador. O romantismo não é para mim."
Este post foi copiado do blogue Os cavalos também se abatem, cuja visita eu recomendo vivamente a quem que por aqui passa, por acaso ou não. Pelo bom gosto das escolhas do seu editor e pela sua escrita.
"Encontrou-o. Seis vezes passou por Lisboa, esta era a sétima. Vinha do sul, dos lados de Pegões. Atravessou o rio, quase noite, na última barca que aproveitara a maré. Não comia há quase vinte e quatro horas. Trazia algum alimento no alforge, mas, de cada vez que ia levá-lo à boca, parecia que sobre a sua mão outra mão se pousava, e uma voz lhe dizia, Não comas, que o tempo é chegado. Sob as águas escuras do rio, via passar os peixes a grande profundidade, cardumes de cristal e prata, longos dorsos escamosos ou lisos. A luz interior das casa coava-se através das paredes, difusa como um farol no nevoeiro. Meteu-se pela Rua Nova dos Ferros, virou para a direita na igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em direcção ao Rossio, repetia um itinerário de há vinte e oito anos. Caminhava no meio de fantasmas, de neblinas que eram gente. Entre os mil cheiros fétidos da cidade, a aragem nocturna trouxe-lhe o da carne queimada. Havia multidão em S. Domingos, archotes, fumo negro, fogueiras. Abriu caminho, chegou-se às filas da frente. Quem são, perguntou a uma mulher que levava uma criança ao colo, De três sei eu, aquele além e aquela são pai e filha que vieram por culpa do judaísmo, e o outro, o da ponta, é um que fazia comédias de bonifrates e se chamava António José da Silva, dos mais não ouvi falar.
São onze os supliciados. A queima já vai adiantada, os rostos mal se distinguem. Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda. Talvez por ter a barba enegrecida, prodígio cosmético da fuligem, parece mais novo. E uma nuvem fechada está no centro do seu corpo. Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda."
final de Memorial do Convento de José Saramago, Caminho
"Quando só há gaivotas e solidão, é que a Arrábida se revela, se entrega inteirinha." Sebastião da Gama em Diário
"Arrábida – Serra de um Poeta” é um filme de cerca de dez minutos com que Miguel Brazuna se apresentou ao concurso “Arrábida – Curtas e Doc’s 2011”, promovido pela AMRS - Associação de Municípios da Região Sul - no âmbito da candidatura da Arrábida a Património Mundial. O filme baseia-se no livro de poemas de Sebastião da Gama, Serra-Mãe.
inZeca Afonso - o Andarilho da voz de ouro de José Jorge Letria e Evelina Oliveira (ilustradora)
Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia?
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira
Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela primavera
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia
É em português que eu sinto, que eu amo, que eu vivo e, por isso tento ter cuidado na forma como me exprimo (nem sempre com pleno sucesso, confesso!). Tentar falar e escrever de forma correta (com acordo ou sem acordo) é o mínimo que cada um pode fazer para dignificar este bem.
"O português é a língua oficial de oito países - Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste - em quatro continentes - África, América, Ásia e Europa. A língua atravessa assim um espaço descontínuo ao longo de uma área vasta do globo terrestre (7,2 por cento da terra do planeta), abrangendo realidades extremamente diversas que se reflectem na multiplicidade de falares.
José Saramago disse “não há uma língua portuguesa, há línguas em português“. Agualusa, numa entrevista ao blogue Porta-Livros, refere: "O português é uma construção conjunta de toda a gente que fala português e isso é que faz dele uma língua tão interessante, com tanta elegância, elasticidade e plasticidade."
Este dia é comemorado desde Fevereiro de 2000 com o objectivo de promover a diversidade linguística e cultural e o plurilinguismo e foi proclamado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) em 17 de Novembro de 1999.
Nota: esta foto foi copiada do FB de Andante Associação Artística cujo mural é uma fonte de conhecimento a nível da ilustração e da poesia. Visite-o e conheça o trabalho que eles fazem. Muito BOM!
Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia?
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira
Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela primavera
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia
Júlio Machado Vaz à conversa com Aurélio Gomes, num programa de rádio, O Sexo dos Anjos - Rádio Nova, Porto entre 1989 e1997.
Falavam a propósito de um poema de Sérgio Godinho "Que há-de ser de nós?"
"Aurélio Gomes - Ao menos uma vez , gostava de escrever um poema assim. Ou só um verso!
Júlio Machado Vaz - É fascinante ver as nossas vidas transfiguradas pelo talento dos poetas. Sabe você, o único prémio atribuído a Freud, foi-o pela qualidade literária da sua obra. O velho Sigi escrevia maravilhosamente. Sobre o amor era um pouco pessimista quanto às possibilidades da Ciência, aconselhava as pessoas a interrogar os poetas e os apaixonados. O Eugénio tem dois versos que rezam assim: «Nenhum amor é estéril, um filho pode ser uma estrela ou um verso.» É verdade. As relações desfazem-se ante os nossos olhos, os outros escapam-se-nos por entre os dedos e nós pensamos «por que raio me meti nisto, os sinais estavam à vista!» Mas lá no fundo sabemos que não nos poderíamos ter dado ao luxo de não tentar, ficaríamos sempre a pensar «e se eu ...?» Por isso os técnicos de educação sexual citam tantas vezes a velha frase - «Pode-se transmitir o conhecimento, mas não a sabedoria.» Essa adquire-se à nossa custa. E à custa dos outros!
Aurélio Gomes - Antes do programa, e para mudar de tema, o doutor estava a conversar com amigos nossos acerca da Agustina Bessa Luís ..."
Este excerto foi descontextualizado do capítulo "Que há-de ser de nós?", que começa "Se a paixão der lugar ao amor, para onde vamos depois? Mais amor ou comodismo?" - pergunta Aurélio Gomes.
em O Sexo dos Anjos de Júlio Machado Vaz, Relógio d' Água, 1991 (excerto)
Que há-de ser de nós? -poema de Sérgio Godinho, música de Ivan Lins. Do álbum "Coincidências", 1983.
Each day I live
I want to be a day to give the best of me
I'm only one, but not alone
My finest day is yet unknown
I broke my heart for ev' ry again
to taste the sweet, I face the pain
I rise and fall, yet through it all this much remains
I want
One moment in time
When I'm more than I thought I could be
When all of my dreams are a heart beat away
and the answers are all up to me
Give me one moment in time
When I'm racing with destiny
and in that one moment of time
I will feel, I will feel eternity
I lived to be the very best,
I want it all, no time for less
I've laid the plans
Now lay the chance here in my hands
Give me ...
Há algum tempo, publiquei um post sobre O amante é sempre o último a saber, que eu decidi retirar pelo facto de ainda não ter lido o livro. Tenho que confessar que foi o título que me aguçou a curiosidade e que me levou a procurar informação. Fiquei com vontade de o ler! Não pelo título, como é evidente, que é "enganador" e ainda bem. Se tal não fosse, correria o risco de ser uma história banal. Ou talvez não...
Como também não conhecia Rui Zink como escritor, achei que tinha chegado a altura de o fazer, alargando, assim, os meus horizontes literários que são muito restritos, como é notório, neste blogue.
Neste romance, Rui Zink devolve à palavra "amante / amador" o seu sentido original "aquele que ama não como o terceiro, mas como o primeiro". No seu discurso sobre o seu livro, Zink arrisca, ainda, uma definição de amor "O que é o amor? É quando duas pessoas que não se se conhecem de lado nenhum, de repente se tornam essenciais uma para a outra. Isso é o amor!"
E quem fala de amor fala também do desamor e como tudo "isto" pode ser comparável ao ato de ler. Muito interessante ouvir o discurso de Rui Zink sobre os temas que ele relaciona com o seu romance. Sigam o link! Não deixem de o ouvir!
Sobre a história de amor entre Teresa e Tano, cito, novamente o autor "Tal o amor tiverdes, tereis a experiência de meus versos." Camões.
Ainda não o acabei de ler, mas devo terminá-lo em breve (coisa rara!).
"A leitura é um ato de disponibilidade para ir visitar um mundo que não é o meu ..." Rui Zink
É desta forma que eu também gostaria que este blogue fosse "lido".
E a quem que, por aqui, passa, por acaso ou não, desejo muito boa(s) leitura(s).
A propósito da apresentação do livro de Ismael e Chopin de Miguel Sousa Tavares, ouvimos Noturno de Chopin.
"Os homens são estranhos, Ismael. Nem sempre escolhem o que mais gostam, aquilo que os faz ser felizes." em Ismael e Chopin de Miguel Sousa Tavares
A existência das "novas" tecnologias na sala (novidade!), a vontade dos miúdos de ter uma aula diferente e uma professora / pessoa que, "por vezes", se deixa convencer, contribuíram para um belo momento que vai ficar nas nossas memórias por muito tempo.
Vi este filme no canal Hollywood. De- Lovely é sobre a vida e a música do compositor Cole Porter. Aqui fica uma das músicas da banda sonora. Foi difícil a escolha: Begin the beguine por Sheryl Crow.
De-Lovely, do realizador Irvin Winkler, com Kevin Kline e Judd Jonathan Pryce, 2004
BEGIN THE BEGUINE
When they begin
the beguine
it brings back the sound
of music so tender
it brings back a night
of tropical splendor
it brings back a memory of green
I'm with you once more
under the stars
and down by the shore
an orchestras playing
and even the palms
seem to be swaying
when they begin
the beguine
to live it again
is past all endeavor
except when that tune
clutches my heart
and there we are swearing to love forever
and promising never
never to part
a moments divine
what rapture serene
to clouds came along
to disperse the joys we had tasted
and now when I hear people curse the chance that was wasted
I know but too well what they mean
so dont let them begin the beguine
let the love that was once a fire
remain an ember
let it sleep like the dead desire I only remember
when they begin the beguine
oh yes let them begin the beguine
make them play
til the stars that were there before
return above you
till you whisper to me
once more darling I love you
and we suddenly know what heaven we're in
when they begin
the beguine
"Cá fora, mal passámos a porta que dava para a varanda, o grande sopro do mar cobriu-nos, rodeou-nos, invadiu-nos.
O nevoeiro tinha transfigurado tudo.
Agora só cheirava a mar. Um perfume apaixonado de algas escorria das árvores. Lua e estrelas não se viam. Nem os plátanos se viam. Só se viam muros brancos no nevoeiro branco. Tudo estava imóvel e suspenso.
Só a voz do mar se ouvia, espantosamente real, recriando-se incessantemente.
E parecia que os grandes, verdes e violentos espaços marinhos, como sendo o nosso próprio destino, nos chamavam."
final do conto Praia, em Contos exemplares de Sophia de Mello Breyner, Figueirinhas, 2006 (excerto) Foto de As estações do ano
"Pôs-lhe a mão no braço e olhava-o fixamente. Ele olhou-a também e ambos ficaram a tentar entender-se em silêncio. Depois ela tirou a mão do braço do rapaz e acendeu novo cigarro. O sol escorria do alto e inundava-lhes agora toda a mesa. O rapaz tomou o copo e bebeu um gole devagar.
- Diz outra vez - repetiu a rapariga. - Deixa-me entender. Diz outra vez para entender tudo muito bem.
- Tu vais dizer que tudo isto é estúpido e eu sei bem que é. Mas se a gente pensar bem, a estupidez é só nossa.
- Sim. Mas explica tudo muito bem. Desde o princípio. Devagarinho.
- A estupidez é só nossa, porque a vida não é verdade. Mas é a única coisa em que se acredita - disse o rapaz.
- Sim - repetiu a rapariga. - Mas era bom que explicasses desde o princípio. Devagarinho. Para eu não acreditar também. Está um dia cheio de sol.
- Mas a explicação é simples - disse ele, balouçando o líquido no fundo do copo. - Eu vou explicar tudo. Eu vou.
Estava uma tarde cheia de sol. As águas brilhavam até ao limite do horizonte, um barco à vela ia passando pela estrada de lume. O ar estava quente. E a brisa do mar quase não chegava ali."
Final de A esplanada sobre o mar de Vergílio Ferreira, Difel (ver mais aqui)
Há "coisas" que passam à frente dos nossos olhos e que nos fazem sentir que estamos há muitos anos no mesmo sítio, lembrando-nos a frase de Sócrates "Não sou grego nem ateniense mas sim um cidadão do mundo." E ficamos com vontade de a(s) seguir ...
Todo cambia de Mercedes Sosa encontrado em Existente Instante, um dos "meus" blogues de eleição.
Soneto de Luís de Camões
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Inicio este ano de 2012 com a referência a um filme de animação - Spirit - a marcar uma década de inúmeras visualizações deste género cinematográfico, em que a beleza e a fantasia são reis.
Spirit de Kelly Asbury e Lorna Cook, 2002. Banda sonora da autoria de Brian Adams.
"A estrela ergueu-se muito devagar sobre o Céu, a oriente. O seu movimento era quase imperceptível. Parecia estar muito perto da terra. Deslizava em silêncio, sem que uma folha se agitasse. Vinha desde sempre. Mostrava a alegria, a alegria una, sem falha, o vestido sem costura da alegria, a substância imortal da alegria.
Baltasar reconheceu-a logo, porque ela não podia ser de outra maneira."
Final do conto Os três reis do oriente, de Sophia de Mello Breyner. Ilustrações de Fedra Santos.
"Nessa noite, depois da lua ter desaparecido atrás das montanhas, Melchior subiu ao terraço e viu que havia no céu, a oriente, uma nova estrela.
A cidade dormia, escura e silenciosa, enrolada em ruelas e confusas escadas. Na grande avenida dos templos já ninguém caminhava. Só de longe em longe se ouvia, vindo das muralhas, o grito de ronda dos soldados.
E sobre o mundo do sono, sobre a sombra intrincada dos sonhos onde os homens se perdiam tateando, como num labirinto espesso, húmido e movediço, a estrela acendia, jovem, trémula e deslumbrada, a sua alegria.
E Melchior deixou o palácio nessa noite."
Os três reis do oriente de Sophia de Mello Breyner Andersen. Ilustrações de Fedra Santos. (excerto)
"Primeiro pareceu a Gaspar que a estrela era uma palavra, uma palavra dita na muda atenção do céu.
Mas depois o seu olhar habituou-se ao novo brilho e ele viu que era uma estrela, uma nova estrela, semelhante às outras, mas um pouco mais próxima e mais clara e que, muito devagar, deslizava para o ocidente.
E foi para seguir essa estrela que Gaspar abandonou o seu palácio."
Os três reis do Oriente de Sophia de Mello Breyner. Ilustrações de Fedra Santos.(excerto)
E assim termino o ano de 2011, desejando a todos os que passam e param em As estações do ano, um FELIZ ANO NOVO.
"So quiet and peaceful
Tranquil and blissful
There's a kind of magic in the air
What a truly magnificent view
A breathtaking scene
With the dreams of the world
In the palm of your hand"
Sopra demais o vento Para eu poder descansar ... Há no meu pensamento Qualquer coisa que vai parar
Talvez esta coisa da alma Que acha real a vida Talvez esta coisa calma Que me faz a alma vivida ...
Sopra um vento excessivo Tenho medo de pensar ... O meu mistério eu avivo Se me perco a meditar
Vento que passa e esquece Poeira que se ergue e cai ... Ai de mim se eu pudesse Saber o que em mim vai ... Poema de Fernando Pessoa e música de José Joaquim Carvalho Júnior.
Quando se viu sozinha no meio da rua teve vontade de voltar para trás. As árvores pareciam enormes e os seus ramos sem folhas enchiam o céu de desenhos iguais a pássaros fantásticos. E a rua parecia viva. Estava tudo deserto. Àquela hora não passava ninguém.
"Tenho medo", pensou ela. Mas resolveu caminhar para a frente sem olhar para nada.
Quando chegou ao fim da rua virou à direita e meteu a um atalho entre dois muros. E no fim do atalho encontrou os campos, planos e desertos. Ali sem muros nem árvores nem casas, a noite via-se melhor. Uma noite altíssima redonda e toda brilhante. O silêncio era tão forte que parecia cantar. Muito ao longe via-se a massa escura dos pinhais.
"Será possível que eu chegue até lá?", pensou Joana. Mas continuou a caminhar.
"Tenho frio", pensou Joana. Mas continuou a caminhar.
Joana parou um instante no meio dos campos.
"Para que lado ficará a cabana?", pensou ela.
E olhava em todas as direções à procura de um rasto.
"Como é que eu hei de encontrar o caminho?", perguntava ela.
E levantou a cabeça.
Então viu que no céu, lentamente, uma estrela caminhava. Esta estrela parece um amigo", pensou ela.
E começou a seguir a estrela."
A Noite de Natal de Sophia de Mello Breyner Andersen (excertos)
Stand by Me começou por ser interpretada, em 1961, por Ben E. King. Baseada no espiritual "Oh Lord, stand by me" foi escrita por King, Jerry Leiber e Mike Soller. Entre muitos intérpretes escolhi John Lennon. E com esta música dou por terminado o tema 1961.